LANÇAMENTO: Novo estudo mapeia uma década de violência letal contra a juventude negra e periférica na Paraíba
Foi divulgado o resultado de um esforço inédito e colaborativo de pesquisa que lança luz sobre uma das realidades mais urgentes e invisibilizadas do estado: o "Mapeamento das violências sofridas por adolescentes e jovens negros e periféricos no estado da Paraíba entre os anos de 2015 a 2025". O estudo abrange uma série histórica de 10 anos e analisa de forma detalhada os índices de Mortes Violentas Intencionais (MVI) em todas as quatro mesorregiões do estado (Mata Paraibana, Agreste Paraibano, Borborema Paraibana e Sertão Paraibano).
Hyann Hernande
4/6/20263 min ler


A obra é fruto de uma forte articulação entre a sociedade civil e a academia. Construída a partir de uma demanda do Serviço Pastoral dos Migrantes do Nordeste (SPM-NE), a pesquisa foi executada por pesquisadores do Grupo de Estudos em Violência e Segurança Pública (GEVISP), vinculados à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O levantamento quantitativo contou com a parceria do Núcleo de Análise Criminal e Estatística (NACE-PB) da Secretaria de Estado de Segurança Pública e da Defesa Social.
A cor e o CEP da violência letal Focado na faixa etária de 12 a 29 anos, o estudo demonstra com dados alarmantes que a violência letal na Paraíba atua de forma estrutural e seletiva. A esmagadora maioria das vítimas de homicídios no estado é composta por pessoas pretas e pardas. A pesquisa atesta que a morte se concentra geometricamente onde a diferença social é mais intensa: em grandes polos urbanos e metropolitanos. Cidades como João Pessoa, Campina Grande, Patos e Catolé do Rocha destacam-se pelos altos índices de letalidade, evidenciando que a exclusão socioeconômica, o racismo e a ausência do Estado operam como sentenças de morte nesses territórios.
A supremacia da arma de fogo e a letalidade policial Em todas as microrregiões analisadas, a arma de fogo (tipificada pelo CID X93) é o instrumento predominante e hegemônico nas execuções dos jovens. O mapeamento também expõe o grave cenário da letalidade decorrente de intervenções policiais (CID-Y35). Os números oficiais revelam uma lógica de repressão focalizada, na qual a força estatal é direcionada massivamente aos territórios periféricos e aos corpos negros masculinos, operando sob uma dinâmica de guerra interna e de criminalização prévia dessa juventude.
Desigualdades de gênero e métodos da violência O estudo traz um recorte interseccional fundamental: homens e mulheres jovens morrem sob lógicas e métodos distintos. Enquanto os homens jovens negros representam mais de 90% das vítimas mortas em espaços públicos e confrontos armados, as mulheres jovens (também em sua maioria negras) são vítimas de feminicídio e violências domésticas. A pesquisa revela que as mortes femininas frequentemente ocorrem dentro de suas casas, perpetradas por parceiros ou ex-parceiros, utilizando uma variedade maior de instrumentos cruéis que indicam contato direto, como estrangulamento, sufocamento, espancamento, armas brancas e até incêndios.
Muito além dos números: a escuta das juventudes Buscando não reduzir vidas a meras estatísticas, o mapeamento incluiu metodologias qualitativas como observação participante e a realização de um grupo focal com jovens periféricos na comunidade Mário Andreazza (Bayeux-PB). Os relatos revelaram o profundo adoecimento físico e mental dessa população e o descrédito nas instituições oficiais. Para muitos desses jovens, o conceito de "segurança pública" inexiste, sendo substituído na prática pelo que eles chamam de "violência pública". Em muitos casos, relatam que a mediação de conflitos nos bairros acabou sendo assumida por facções criminosas, reflexo do abandono do poder público.
Um chamado por novas políticas públicas Conduzido pelas lentes críticas dos Direitos Humanos e do pensamento decolonial, o estudo conclui que a sociedade paraibana e brasileira vive sob a égide da necropolítica — um sistema em que o Estado decide quais vidas merecem proteção e quais devem ser sistematicamente eliminadas.
Ao final, os pesquisadores e a juventude ouvida apontam que a reversão desse quadro não se dará por mais intervenção armada, mas sim pela urgência de políticas públicas emancipatórias. A pesquisa recomenda o fortalecimento de redes de proteção, a implementação efetiva do direito à moradia digna, do acesso à educação de qualidade, de suporte à saúde mental e o fomento aos equipamentos de cultura, esporte e lazer nas periferias.
O estudo já está disponível para leitura e visa subsidiar gestores públicos, acadêmicos, movimentos sociais e toda a sociedade civil na formulação de ações concretas para frear a máquina de extermínio e garantir à juventude negra paraibana o direito de viver com dignidade.



